Colégio Magnum - Uma escola para sempre

Colégio Magnum Cidade Nova - Uma escola completa



Notícias  

MIGRAÇÃO E SOLIDARIEDADE

29 outubro 2015

No já distante ano de 1995, o historiador e cientista político alemão Immanuel Wallerstein escreveu que o mundo pós Guerra Fria assistiria à derrocada do liberalismo. Naquela época era difícil ter a dimensão da plausibilidade dos seus argumentos, afinal, a chamada Cortina de Ferro havia desaparecido e as relações entre os países se tornavam cada vez mais profundas. Hoje, 20 anos depois desse argumento ter sido produzido, percebemos o seu caráter visionário. Wallerstein salientou na ocasião que o crescente abismo existente entre países ricos e pobres mobilizaria um fluxo populacional sem precedentes, envolvendo o centro e a periferia mundial. Como forma de combater o efeito colateral da ampliação das desigualdades de riqueza que marcam o nosso tempo, Estados passariam a controlar efetivamente as suas fronteiras, colocando em risco a consolidação de um mundo verdadeiramente liberal (em todas as parcelas do universo semântico que esta polissêmica palavra apresenta). Eis que as crescentes desigualdades produziram efeitos que não poderíamos prever: a ampliação do espectro que envolve a riqueza e a pobreza das nações foi tamanha, que é possível considerarmos a migração de indivíduos de países muito pobres para países que estão longe de serem considerados ricos. É o que acontece com os senegaleses, bolivianos e haitianos que buscam abrigo no Brasil.

Outra classe de migrantes, não problematizada por Wallerstein, é a composta por indivíduos que deixam países por sérias questões políticas (os haitianos também podem ser inseridos nesta categoria) que acabam trazendo reflexos diretos nas oportunidades econômicas e sociais. Estão nesta categoria: o perseguido povo rohingya que compõe um estrato minoritário da população de Bangladesh e busca abrigo na Tailândia; os somalis que enfrentam um longo calvário de instabilidade política que assola o seu país e remonta ao início da década de 1990; e os sírios, que têm estabelecido um fluxo migratório estarrecedor, capaz de produzir reações diversas nos países que têm sido alvo do seu deslocamento. Para aqueles que se debruçam sobre os estudos das migrações, dois axiomas estão consolidados na forma de analisar tais movimentos: o primeiro é o caráter extremamente dinâmico das migrações, à medida que as variáveis que estimulam os migrantes e que envolvem sua origem e seu destino podem se rearranjar; o segundo é que grandes fluxos migratórios que passam a ser estabelecidos denunciam grave desequilíbrio nessas variáveis citadas. Deste modo, é plausível admitir que somente um evento de grandes proporções poderia justificar o volume de sírios que se estabelecem na Jordânia, na Turquia e que buscam refúgio na Europa. A Guerra Civil Síria é um evento extremamente complexo que envolve pelo menos quatro grupos antagônicos (opositores que desejam a queda do regime de Assad, curdos, forças do Estado Islâmico e governistas). As divergências políticas das potências mundiais quanto à forma de atenuar o drama sírio não têm contribuído para amenizar o sofrimento do seu povo. Os Estados Unidos estão desejosos quanto à queda do governo Assad. A Rússia, por sua vez, deseja a manutenção de Assad. Enquanto os protagonistas da política em escala mundial recalcitram, massas de imigrantes atravessam o mar rumo à Europa.

Diante do exposto, torna-se evidente que a questão-chave que envolve as migrações internacionais passa pela incapacidade dos Estados que abrigam determinadas populações em oferecer condições suficientes para dignificar a vida de seus cidadãos (ou de parcela deles). O renomado cientista político francês Bertrand Badie faz questão de lembrar que o Sistema Internacional de Estados é responsável pela falência das instituições governamentais de seus membros. Como ignorar a inércia internacional na produção e perpetuação do caos político somali? Como ignorar o papel da intervenção militar norte-americana e posteriormente sua atabalhoada retirada do Iraque para a gênese do Estado Islâmico que hoje consome o leste sírio? No caso somali, não ocorre a intervenção onde deveria ter ocorrido. No caso iraquiano, houve a intervenção onde não deveria ter acontecido. Claramente, o processo decisório que move as grandes potências à intervenção está contaminado de interesses que colocam o bem-estar da população local em um patamar secundário.

É mister a formação de uma sociedade planetária solidária, capaz de redistribuir melhor os seus recursos e livre de potências que ajam pensando exclusivamente nos seus interesses. Este argumento não se trata de uma ingenuidade baseada na crença do abandono do materialismo que pauta a sociedade contemporânea. Trata em suavizar o materialismo nas nossas escolhas, não permitindo que o mesmo seja o fator precípuo em nossas vidas. Assim, poderemos deixar em um patamar secundário a discussão sobre a qualidade do acolhimento que daremos aos imigrantes, pois teremos agido preventivamente para aliviar o seu sofrimento.

Leonardo Luiz Silveira da Silva - Professor de Geografia.

Publicado em 29 de outubro, no caderno de Opinião, do Jornal Estado de Minas.