Colégio Magnum - Uma escola para sempre

Colégio Magnum Cidade Nova - Uma escola completa



Notícias  

Paradoxo da dependência

12 dezembro 2015

Não há quem sustente o argumento de que a tragédia ocorrida em Mariana tenha sido um acidente ou fatalidade. É claro que existem culpados e que esses devem ser responsabilizados pelo ocorrido ali. Assim, a atribuição da culpa, (grande abrasadora da história), a meu entender, por mais subjetiva que seja, se polariza nas duas vertentes que, de longe, se rivalizam: a SAMARCO - leia-se Vale - e a Anglo-australiana BHP Billiton, além do governo do Estado.

É improvável que alguma equipe técnica de engenharia elabore e execute uma obra com a perspectiva de que ela venha a ruir, mas, em mesma medida, é improvável que não se estabeleçam possíveis mecanismos de defesa para que, se ocorrerem imprevistos, estes sirvam para atenuar danos ou até mesmo evitá-los. Ao que parece, no caso de Mariana e em outros já experienciados em Minas, não foi assim que ocorreu.

Minas Gerais, historicamente, continua sendo o estado com maior participação na produção de minerais metálicos do Brasil, com pouco mais da metade do que é extraído de metais metálicos no país e tem participação, na composição do PIB mineiro, cerca de 4%. Isso se deve à estrutura geológica do Estado, sobretudo no chamado Quadrilátero Ferrífero, que sobrepõe a maior parte dos minérios metálicos à ocorrência dos grandes aquíferos e cursos de água, o que torna a atividade exploradora mais atrativa, reduzindo custos. Por outro lado, o que é uma benesse para o capital, também amplia os danos ambientais, tanto no uso da água, quanto no rebaixamento dos aquíferos, redução e até seca das nascentes e o descarte desta água - ainda que feito em barragens - com os rejeitos da mineração.

Além disso, há que se destacar a situação de refém no qual se encontra um grande número de municípios, trazendo à reboque a eliminação de atividades regionais tradicionais e a dependência socioeconômica destes.

A dependência deste capital seja ele privado ou não, na exploração mineral, cria um vácuo entre o que de fato interessa à sociedade brasileira e os interesses daqueles que o detém, pois, os governos, em todas as esferas, se beneficiam com a arrecadação e investimentos que, inquestionavelmente, proporcionam o crescimento econômico e acabam por forçar melhorias na prestação de serviços, na infraestrutura municipal e regional além de geração de empregos.

Em 2010, a British Petroleum teve que desembolsar 18,7 bilhões de dólares de indenização aos cinco Estados, nos Estados Unidos, pelo vazamento de petróleo no Golfo do México. Aqui, em Mariana, a SAMARCO teve um faturamento líquido, em 2014, de 2,8 bilhões para, em princípio, efetuar o pagamento de uma multa de 250 milhões de reais. Ainda que valor nenhum restitua a vida de uma pessoa, nada justifica ser complacente com a empresa infratora. Isto é, não devemos sucumbir ao entendimento de que qualquer valor monetário possa reconstituir vidas e o meio ambiente, por mais que este simbolize a penalização dos responsáveis.

Também não há razão para não culpar a omissão do Estado que, ao longo do tempo, diante de concessões exorbitantes, falta de cobrança e controle, teve sua economia recheada de dividendos, sem, no entanto, de forma competente, implementar políticas que fomentem novas tecnologias, estimulem a produção e trabalho de maior valor agregado e a diversificação dos setores da economia. 

Diante desta dependência, o grande desafio é equalizar este modelo antagônico em que consiste a exploração mineral, preservação ambiental e a dependência econômica. Tomara que as críticas e os questionamentos dos fatos não sejam diluídos com a lama ao longo do tempo e que outros “acidentes” como este não venham a ocorrer.

Silvânio Fortini - Professor de Geografia.

Publicado em 12 de dezembro, no caderno de Opinião, do Jornal Estado de Minas.